Ramon Kayo

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Entusiasta dos pequenos negócios, mantém um pequeno negócio de desenvolvimento de sites e um espaço de coworking. Compartilha ideias de como ser mais criativo e produtivo.

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Você fracassa em busca de likes

Ramon KayoRamon Kayo

Quero deixar claro: este não é um texto sobre mídias sociais. Não é nem mesmo um texto sobre internet.

Antes das mídias sociais, eu não sabia o que as pessoas almoçavam, que elas tinham animais de estimação e que viajavam para a Europa. Eu até tenho minhas dúvidas se as pessoas realmente faziam todas essas coisas antes de terem um perfil no Facebook. O fato é que eu vejo uma semelhança enorme entre todos. As histórias são tão repetitivas e previsíveis, que eu já sei o que vou encontrar antes mesmo de abrir o Facebook. Mas nada disso me incomoda. Gosto do Facebook e o acesso todos os dias, várias vezes, só para ver essas coisas. A única coisa que me incomoda em ver as postagens óbvias é a dúvida: será que essas pessoas são mesmo todas iguais?

De alguma forma, eu sei que as pessoas são todas diferentes. Mas nas mídias sociais tendem a fazer sempre as mesmas coisas, como se seguissem uma nova moda. Eu suspeito do motivo: ninguém mostra o lado estranho de si nas redes. Esta pitadinha de bizarro, que nos faz diferente, é colocada embaixo do tapete e assim sobra somente as intersecções cinzas e sem graça. Aparentemente, expressar-se de verdade tornou-se arriscado demais para o indivíduo, que corre o risco de não ter um feedback, de não ser amado por todos. Dá medo de ser diferente. É como se, inconscientemente, todos soubessem que existe uma linha que divide o aceitável do não aceitável, uma linha que ignora a diversidade, que padroniza e exclui. Ninguém quer cruzar essa linha, mesmo sendo justamente o que temos do outro lado que nos torna originais.

A verdade é que um like é só uma confirmação de que alguém nos aceita. Se você postar uma foto doando sangue, tenha certeza: vai colher dezenas de likes. São as pessoas dizendo que isso é totalmente aceitável. E é mesmo. Mas experimente postar um contra-senso e enfrentará o silêncio constrangedor da internet. Você até pode, mas só se for capaz de conviver com o ícone desbotado das notificações. Vai estar lá para todo mundo ver que ninguém te aprovou.

O grande problema é que em algum momento isso começou a moldar as pessoas. O medo de não ser aprovado pelo coletivo passou a tomar as decisões pelos indivíduos. Vejo as pessoas ensaiando para postar algo: carregam a foto, escrevem a legenda, revisam, pensam e desistem como se concluíssem “isso não vai ter likes”. Cinco minutos depois, repetem o processo e então postam. A seguir ficam checando o smartphone a cada dois minutos para saber quantos likes aquilo teve. E se não obtiver likes em determinado espaço de tempo, apagam a postagem. Daí pra frente convivem com a dúvida de quantas pessoas viram o fracasso. Alguns tem tanto medo, mas tanto medo, que não participam mais, apenas se escondem atrás da tela, observando o que é aceitável e o que não é.

Nenhum desses comportamentos são próprios de um tipo específico de pessoa, menos qualificada. Ao contrário, são próprios de todos nós. Eu mesmo já me peguei empolgado com uma foto nova, ansioso para jogá-la na timeline e ver o que aconteceria. Outras vezes, desisti de escrever algo que queria muito expressar. Hoje me questiono o porquê.

Não há nada de errado em postar fotos de gatinhos, do prato bonito ou da viagem à Paris — na verdade, eu gosto de ver essas coisas na minha timeline. Ainda bem que não existe um “Livro Oficial de Regras do Facebook”. Mas infelizmente existem as regras não escritas que as próprias pessoas impõem umas às outras. Os haters são os pilares dessa cultura. Eles se responsabilizam por fiscalizar o que pode e o que não pode: quem posta meme ou fala sobre BBB é alienado, quem posta um texto elaborado é pseudo-intelectual, quem posta sobre política é ativista hipócrita de sofá, e assim por diante. Algumas pessoas são fiscais o tempo todo. Outras, só as vezes. A verdade é que em todos nós, usuários de mídias sociais, existe um fantasma — pequeno ou grande — que quer conservar os padrões e que oprime sem saber.

Quebrar essas regras invisíveis, nos devolveria a essência que as mídias sociais supostamente roubaram. Mas é necessário notar: não foram as mídias que nos tomaram, fomos nós mesmos. Deixar de se expressar por causa do medo de ser diferente é ceder à norma, aos padrões desnecessários. Assim, quando você cede e se cala, corre o risco de se juntar aos que reforçam a linha imaginária do certo e errado.

Você fracassa toda vez que não posta algo por medo de não ter likes. Você fracassa toda vez que não tuíta algo com medo do que vão pensar. Você fracassa toda vez que não se expressa na web. Você fracassa toda vez que replica o comportamento padronizador.

Acima de tudo, você fracassa toda vez que quer mais se adequar do que ter direito ao próprio espaço.

E, de novo, este não é um texto sobre mídias sociais. Não é nem mesmo um texto sobre internet.

Entusiasta dos pequenos negócios, mantém um pequeno negócio de desenvolvimento de sites e um espaço de coworking. Compartilha ideias de como ser mais criativo e produtivo.